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Artigos
Religião,
Estado e esquizofrenia
Na seção dos editoriais sem assinatura de um dos nossos
maiores jornais, alguém se mostrava preocupado com a existência do ensino
religioso nas escolas públicas. Mas, quem leu o artigo, percebeu que a
intenção oculta do autor parecia ir além.
Ao comentar rapidamente a disposição da governadora do
Estado Rio de Janeiro em adotar o criacionismo nas aulas de ensino religioso,
chamou algo de esquizofrênico o fato de o aluno estudar versões distintas
simultâneas nas aulas, a de Darwin (1809-1882) que defendia o evolucionismo e a
da Bíblia que defendia o criacionismo, segundo o qual Adão e Eva foram criados
"à imagem e semelhança de Deus". Será que a teoria da evolução
contraria a o criacionismo?
Há mais de cinqüenta anos, estudávamos as duas versões
nas aulas de filosofia e exegese bíblica, e já sabíamos que a teoria
evolucionista não é unívoca e sua versão moderada se coaduna com tese
bíblica. O autor parece sofrer de esquizofrenia ao deparar-se com a afirmação
bíblica de que o homem foi criado "à imagem e semelhança de Deus".
Talvez lhe pareça mais honroso a que o homem simplesmente se origine de macaco,
do rato ou outro animal, fato não comprovado com certeza absolutamente
científica.
Achei estranho o insigne redator assumir uma posição
supostamente fundamentalista, hoje superada nos meios mais avançados dos
exegetas bíblicos contemporâneos. O autor interpreta o primeiro livro do
Gênesis ad litteram (fundamentalismo), ao afirmar que o homem foi criado
no sexto dia. O que significa "dia"? Os grandes exegetas
contemporâneos interpretam "dia" como se fosse "época" ou
"era", além de acentuar ser outros os objetivos do autor do texto,
como: a criação do mundo por Deus, a sua intervenção direta no criação do
homem, a instituição do descanso sabático, a função do homem no mundo etc.
Segundo entendi, o autor parece defender a tese, hoje
superada, de que a religião contraria a ciência, por esta basear-se em
fatos comprováveis, ignorando que a religião é, atualmente, objeto de
estudos científicos, aparecendo a ciência da bioreligião.
Além de injuriar os que praticam a religião, o autor comete
uma gafe científica, porquanto as ciências não conseguem comprovar suas
asserções ou teorias. O evolucionismo é uma teoria ainda não totalmente
comprovada cientificamente. O que existem são levantamentos que podem
comprovar, mas que ainda não podem ser considerados provas definitivas. O
autor não definiu o que entende por ciência e assim fica difícil saber o que
ele entende. A palavra ciência não possui um conceito unívoco. Veja-se o longo
verbete relativo no dicionário de Antonio HOUAISS, por exemplo.
Chamar de situação abstrusa, sem defini-la, parece
considerar os pedagogos e professores uns tontos, inconseqüentes, confusos,
como se, na terceira página deste jornal, não consagrasse a prática da
inconseqüência, ao publicar quase diariamente, dois artigos com posições
contrárias. O jornal supostamente neutro demonstra sempre posição definida
quando se trata de atacar a religião. Não vejo, por exemplo, contradição
entre o Estado e Religião trabalharem juntos, nem ciência conviver
conseqüentemente com religião. Além do mais se os donos do jornal
supostamente professam (acreditam) a(na) democracia, afirmam que a democracia
nasceu da separação entre Estado e Igreja, quod est probandum, deveriam
respeitar a posição da maioria religiosa do País, que paga impostos que podem
e devem muito bem ser aplicados no financiamento do ensino religioso, sem
constrangimentos ou melindres de alguns, contanto que não haja imposições
como de fato não há, por ser de matrícula facultativa. Não vejo aí
"situação abstrusa" ou "algo de esquizofrênico", pelo
menos, segundo o curso de psicopatologia que fiz.
O jornalista, apesar das gafes, talvez tenha tido a reta
intenção de provocar a discussão mais aprofundada sobre as dificuldades (p.
ex., o perigo de uma interpretação fundamentalista dos textos bíblicos) que o
ensino pode apresentar nas escolas oficiais, para a melhorá-lo. Quem sabe se a
Governadora Rosinha, defrontando-se com a dificuldade de combater o tráfico e o
consumo de drogas apenas pela coerção física, não veja, no ensino religioso,
um instrumento de conscientização do meio estudantil sobre a dignidade do ser
humano e cultivo do respeito que deve haver no relacionamento com seu próximo,
por ser ele criado à imagem e semelhança de Deus. Se assim for, trata-se de
uma bela e eficiente colaboração entre Estado e Religião, o que é bem-vindo
e benéfico para todos. Isso não parece ser "algo esquizofrênico" ou
"situação abstrusa".
P. Manoel Isaú
- doutor em Educação pela USP e
professor do Centro UNISAL de Americana, pesquisador, historiador e
escritor.
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